Reproduzo um texto do Rev. Ricardo Mário Gonçalves, sobre o falecimento do antropólogo Claude Lévi-Strauss:

Caríssimos Irmãos no Dharma,

A República Acadêmica Mundial está de luto: o implacável vento da imprmanência arrebatou de seu convívio, na noite de sábado (31 de outubro), um de seus menbros mais ilustres, o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Além de ter sido o pai da Antropologia e Estrutural,um importante precursor do pensamento ecológico e ambientalista contemporâneo e um grande amigo do Brasil, onde iniciou sua carreira de pesquisador e professor lecionando Sociologia na Universidade de São Paulo entre 1935 e 1938, ele foi também, o que poucos sabem, um dos mais lúcidos intérpretes ocidentais do budismo Ele entendeu o budismo muito melhor do que muitos orientalistas profissionais. Ele valorizava o budismo por ser uma religião eoológica que não estabelece uma dicotomia radical entre Homem e Natureza. No último capítulo de seu livro “Tristes Trópicos” (1955) desenvolve ele importantes considerações sobre o budismo.

Apresento abaixo um breve trecho, à guisa de ilustração:

“Os homens fizeram três grandes tentativas religiosas para se libertarem da perseguição dos mortos, da maleficência do Além e das angústias da magia. Separados pelo intervalo de aproximadamente meio milênio, conceberam sucessivamente o budismo, o cristianismo e o islamismo; e é impressionante que cada etapa, longe de marcar um progresso em relação à precedente, antes testemunha um retrocesso. Não há vida futura para o budismo; nele tudo se reduz a uma crítica radical de que a humanidade nunca mais deveria mostrar-se capaz, à qual o sábio acede, numa recusa do sentido das coisas e dos seres: disciplina que anula o universo e se anula a si própria como religião. Cedendo novamente ao medo, o cristianismo restabelece o outro mundo, as suas esperanças, ameaças e o seu juízo final. Ao islamismo só resta encadeá-lo a esse mundo: o mundo temporal e o mundo espiritual acham-se reunidos… Com efeito, que outra coisa aprendi dos mestres que escutei, dos filósofos que li, das sociedades que visitei e desta própria ciência de que o Ocidente extrai o seu orgulho senão fragmentos de lições que, unidos uns aos outros, reconstituem a meditação do Buda junto da árvore? Todo o esforço para compreender destrói o objeto pelo qual nos tínhamos interessado, em proveito de um objeto de natureza diversa; exige de nossa parte um novo esforço que o elimina, em proveito de um terceiro, e assim por duante até que tenhamos acesso à única presença duradoura, que é aquela em que se desvanece a distinção entre o sentido e a ausência de sentido; a mesma de onde partíramos. Eis que já são decorridos 2.500 anos desde que os homens descobriram e formularam essas verdades. Desde então, nada descobrimos, a não ser – experimentando, umas após outras, todas ass portas de saída – outras tantas demonstrações suplementares da conclusão à qual teríamos querido escapar.
(Cluade Lévi-Strauss – “Tristes Trópicos”, Lisboa, Edições 70, pags. 387-390.)

Que o Buda Amida acolha o Velho Mestre na Luz Serena de sua Terra Pura Ocidental!

NAMU AMIDA BUTSU
Gasshô,
Shaku Riman

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