Será que podemos realmente ficar tão entusiamados quanto os responsáveis por este artigo do Jornal Zero Hora do dia 26 de novembro?

“O futuro do sul do Rio Grande está plantado em fileiras infinitas de árvores que pintam de verde a paisagem. Na carona dos pés de acácias, pinus e eucaliptos, já surgiram 2 mil empregos e há expectativa de outros 3,4 mil. Agora, a crise mundial que estancou investimentos na região faz surgir uma nuvem de desconfiança. Mas, ainda assim, o chamado ouro verde continua sendo a grande aposta de um futuro promissor.”

A monocultura – especialmente de espécies não-nativas como o Eucalyptus, Pinus e Acacia – apresenta sérias dificuldades para o futuro e questões graves sobre a sustentabilidade. Segue um trecho de um artigo que trata da questão da monocultura e as nossas águas.

A MONOCULTURA COM EUCALIPTOS E A SUSTENTABILIDADE
Prof. Dr. Ludwig Buckup (UFRGS e ONG IGRE)
Porto Alegre, março 2006

Por informações vinculadas pela imprensa (Zero Hora 27/09/2005) tornou-se público que está em fase de implementação um programa de plantio extensivo de árvores exóticas em território sulriograndense, a titulo de “florestamento” e/ou “reflorestamento”.

A iniciativa seria das empresas Aracruz Celulose, uma transnacional controlada pelos grupos Lorentzen, da família real norueguesa, e ainda do grupo Safra, do grupo Votorantin e da empresa sueco-finlandesa Stora Enso.

O espaço geográfico reservado para esta iniciativa seria a metade sul do estado, ou seja, a região localizada no extremo meridional do país, na fronteira com o Uruguai e a Argentina, considerando-se uma linha imaginária que dividiria o Rio Grande do Sul a partir da BR-290.

Três grupos de espécies procedentes de outras regiões do mundo, pertencentes aos gêneros Eucalyptus, Pinus e Acacia, serão utilizadas nas plantações.

Como meta inicial, anunciou-se o plantio das exóticas em 150.000 hectares durante os próximos cinco anos. Destes, 70.000 hectares serão destinados ao plantio de espécies do gênero Eucalyptus

O governo do Estado do Rio Grande do Sul vem apoiando fortemente os planos das referidas empresas, considerando que a sua implementação implicaria a descoberta de uma nova vocação para a metade sul do estado, à qual levaria desenvolvimento econômico e social além da geração de empregos e de renda.

A CaixaRS, do governo de Rio Grande do Sul, integrou-se ao apoio governamental, criando o Programa de Financiamento Florestal Gaúcho – PROFLORA CaixaRS, oferecendo recursos financeiros para o plantio de florestas comerciais.

O aspecto preocupante na iniciativa da CaixaRS é a afirmativa que foi incluída no material promocional do PROFLORA, a seguir referida.

Diz a CaixaRS que o plantio de florestas comerciais estaria “…colaborando com a sustentabilidade do planeta...”, o que é totalmente improcedente.

Os compromissos específicos assinados pelo Brasil durante a ECO-92 incluem três convenções: uma sobre Mudança do Clima, sobre a Biodiversidade e uma Declaração sobre Florestas. A Conferência também aprovou a Declaração do Rio e a Agenda 21. Ambos endossam o conceito fundamental de desenvolvimento sustentável, que preconiza a combinação do progresso econômico e material com a necessidade de uma consciência ecológica. A expressão “sustentabilidade” preconizada pela Agenda 21 Brasileira, entende que, a Sustentabilidade deve ser entendida nas suas múltiplas facetas, entre outras, a Sustentabilidade ecológica (referindo-se à base física do processo de crescimento); a Sustentabilidade ambiental (referindo-se à manutenção da capacidade de sustentação dos ecossistemas em face das interferências antrópicas); a Sustentabilidade social (referindo-se ao desenvolvimento); e a Sustentabilidade política, como ao processo de construção da cidadania, nas várias nuances.

Num primeiro momento as monoculturas florestais poderão até gerar lucros financeiros aos promotores, que no entanto, serão amplamente superados pelos custos ambientais decorrentes deste tipo de iniciativa. Primeiramente, será necessário lembrar que o espaço meridional do Rio Grande do Sul não é um vazio ecológico. Trata-se do Bioma Pampa, de grande valor para a biodiversidade, com grande número de espécies vegetais e animais e diversos casos de endemismos. Do ponto de vista ambiental e do conceito da sustentabilidade a remoção da madeira após sete anos de crescimento não pode ser avaliada apenas como ganho líquido. Para a formação da biomassa vegetal a árvore em crescimento removeu do substrato uma apreciável quantidade de nutrientes que não voltarão ao solo, porque não haverá o ciclo normal de nutrientes que caracteriza uma floresta nativa. Conseqüentemente, já pelos aspectos acima referidos, não haverá sustentabilidade alguma nas monoculturas arbóreas, porque haverá perda de riqueza do solo e a paisagem ficará mais pobre após a colheita da madeira.

Entre os elevados custos ambientais da implantação de monoculturas arbóreas em extensas áreas do estado destacam-se as perdas previsíveis de recursos hídricos, tanto do solo como dos ambientes lóticos. As espécies de eucaliptos são conhecidas não apenas pelas suas fibras apropriadas para a indústria de celulose, mas também pela sua alta atividade evapo-transpiratória. A literatura especializada, em várias partes do mundo, contém relatos detalhados e qualificados sobre o tema, como se detalha a seguir:

ler o texto completo no blog Nosso Futuro Roubado

fazer o download do mapa dos 150 mil hectares de árvores plantadas no sul do Estado que fornecem a matéria-prima da indústria de celulose.

visitar o site Vamos plantar 1.000.000 de árvores

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