Por Lygia de Luca, repórter do IDG Now!

São Paulo – Colégio paulistano ensina ética no mundo online a crianças de 9 a 11 anos. Saiba o que elas entendem por ‘cidadania digital’.

“No Orkut, eu tenho 20 anos”, diz um aluno da da 5ª série do Ensino Fundamental. Pergunte-se, agora, se os pequenos internautas sabem o que é ética. Receberá, provavelmente, a resposta “não”. Explicar é o primeiro passo para saber o que crianças de 9 a 11 anos de idade entendem por “cidadania digital”.

Durante a aula “Ética e Cidadania Digital”, do Colégio Bandeirantes, na cidade de São Paulo, Lucas conta que, após uma pesquisa, encontrou materiais de incentivo ao crime, injúria e preconceito na internet. Ao citar exemplos, revela ter visto uma comunidade no Orkut que mandava matar os #EPAAAA!!!#s.

Mas como Lucas entrou no Orkut se a rede social é voltada somente aos maiores de 18 anos? Ele mentiu em seu perfil. Cerca de 80% dos alunos levantam a mão para afirmar que têm uma página no Orkut.

A advogada Cristina Sleiman, da PPP Advogados, alerta que mentir a idade significa falsidade ideológica – já que você concorda com os Termos de Uso do serviço. Embora as palavras sejam um pouco complicadas para a faixa etária, a classe entendeu, em detalhes, que não deveria ter um perfil online.

“Mas os maiores de 18 anos correm menos risco que nós?”, questiona Lucas. Considerando que um dos alunos perguntou o que é pedofilia, dá para entender que eles sabem menos sobre os riscos online do que os adultos.

As crianças não vêem maldade em mentir sua idade no universo online, assim como não acham que, se criarem um perfil falso, serão encontradas caso proliferem maldades na rede. “Eu vi na TV sobre um cara que fazia coisas ruins no Orkut. Mas prenderam o suspeito errado e depois foram descobrir que o computador usado era de outra pessoa”, conta Michelle.

Neste momento, é preciso fazer uma pausa para Cristina explicar o que é a identidade digital, fazendo os pequenos entenderem a necessidade de fazer logoff toda vez que utilizarem a máquina ou um serviço, ação pouco comum entre eles.

Ainda sobre a rede social, Lucas conta que recebe visitas anônimas – enquanto vários colegas confirmam o mesmo. E querem saber se é possível descobrir quem visitou seu perfil.

Descobrem que sim – pelo IP do computador do usuário invasor. Cristina mostra às crianças, contudo, que o trabalho é para adultos: precisaria acionar um provedor ou, neste caso, o Google.

Em contraponto à permissão para uso do Orkut apenas após os 18 anos de idade, os pais de Larissa criaram um perfil para a filha, desautorizada a colocar dados além de seu primeiro nome.

A ordem tem fundamento. A vizinha de carteira, Carolina, foi vítima de um trote de sequestro, que começou na rede social. Uma mensagem inesperada no seu MSN a assustou: era um garoto, que dizia ter 13 anos, e queria namorá-la. Pedido negado. Então ele conseguiu o número de sua casa.

“Ele ligou pro meu pai e disse que eu fui sequestrada”, conta. O trote teve fim quando ameaçaram o suposto garoto de acionar a polícia.

Os pais têm muito mais cuidado com a privacidade online dos filhos do que as próprias crianças. Michelle revela que em seu álbum do Orkut tinha uma foto com uma amiga – esta vestia o uniforme do colégio onde estudava. O pai da amiga viu e pediu que, se quisesse manter a foto, precisaria cobrir o nome do colégio.

“Não entendi, daí tirei a foto”, diz Michelle. A garota, aliás, colocou o computador da família em risco por uma travessura online: acreditou em um spam que prometia mostrar uma foto de Brad Pitt no filme Tróia. “Mas aí baixou um tróia pro meu computador!”, conta, animada.

“Eu queria muito ver o filme, mas é pra maiores de 12 anos”, explica. Graças à possibilidade de alcance à parte íntima do corpo de Brad Pitt, a máquina ganhou um cavalo-de-tróia.

Em meio aos relatos sobre os materiais criminosos online, Renata afirmou ter encontrado coisas horríveis. “Encontramos pessoas falando mal sobre famosos no Orkut. Mas não precisa criar comunidade, isso pode ser crime. Guarde a sua opinião para você”, Renata explica e dá uma lição em seguida.

Mesmo em estado de calamidade, as crianças têm acesso ao universo online e ainda não entendem como agir no mundo virtual. “Falar mal de outras pessoas é crime?”, questiona Michelle.

“Pois é, um dia me xingaram de algo que eu não gostei e eu retribuí com uma coisa muito feia também!”, conta a amiga Natalie. “Eu bloqueei o MSN dessa pessoa”, conta.

Exemplos da ‘vida real’
Segundo a professora Cristiana Mattos e a advogada Cristina Sleiman, algumas crianças tiraram comunidades que ofendiam outras pessoas do ar após as aulas de cidadania digital.

“Eles têm que saber o que é certo e errado. As crianças não têm noção, muitas coisas não fazem por mal”, diz a advogada.

Segundo Cristiana, os alunos têm se mostrado pró-ativos. “Eles querem incentivar os outros a fazerem o bem na internet”, diz.

Além disso, a professora opina que a educação deve ser globalizada, para a vida, o que inclui “riscos e segurança ao navegar na internet”, expõe.

Por isso, uma das formas de ensinar ética é por exemplos da vida real. “É melhor perguntar antes, pedir autorização”, exemplifica Cristina.

Um bom exemplo é que uma das alunas, ao citar que encontrou sites de preconceito a negros diz, inconformada com as manifestações online, que sua tia preferida é negra, diferente de toda a família, pois é adotada.

Neste momento, Maria Carolina levanta a mão e pergunta sobre o link “Denunciar Abuso” que o Orkut oferece. “Ah, tem que ter pelo menos 5 cliques!”, grita um aluno, seguido por outro que explica que o Orkut tem milhões de usuários que vêem a comunidade.

Mesmo sem saber ao certo como ser cidadãos digitais, na certeza de que podem se manter no anonimato, as crianças têm noção de que podem transformar a web em um espaço do bem, como ressaltou Cristiana.
“Eles têm que assumir o que falam, ter responsabilidade”, ensina.

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